segunda-feira, 12 de março de 2012

Sonhando Acordada



Ela encontrava-se deitada em sua cama e por conta disso, refletia sobre o dia que acabará de acabar. Questionava-se sobre um fato ocorrido algumas horas antes; onde por falta de dinheiro, acabou não obtendo aquilo que queria. Era algo que ela própria julgava importante, e por conta disso, tratava aquilo como um problema. Com as mãos sobre o peito e a cabeça sobre o travesseiro, refletia em possibilidades de ficar rica, situação essa que ela avaliava importante. Pensava em contas atrasadas e sua preocupação dilatava seu sono, fazendo com que olheiras aparecem ao longo de várias noites perdidas. Sonhava em viajar, fazer compras, conhecer pessoas e ser alguém na vida, almejava isso como sendo algo que não podia fazer falta na sua ainda curta vida até o momento. Lógico que ela, sempre educada e esforçada já tinha renda, tinha um salário e vivia bem com suas contas que não eram tão atrasadas assim. 

Revirava-se na cama e olhava para o rádio-relógio que se encontrava no criado mudo. Havia ganhado o aparelho de um namorado antigo, lembrava dele quando via o relógio, mas isso não a perturbava, gostava de chamar-lo de relógio do ex-namorado. Dava nome para as varias situações que passava. Aquela situação em particular, que estava passando naquele momento, chamava de; "sonhando acordada". Ali no seu quarto, com paredes brancas e frias, se imaginava em viagens, lugares e passeios que eram seu ponto de fuga. Seus pensamentos a levavam até paisagens e roupas que poderia vir a ter se a caso conseguisse o tal do dinheiro. 

Trabalhava em um escritório de contabilidade, não era formada, mas seus muitos anos no trabalho lhe proporcionaram conhecimento no ramo. Sempre disposta e pontual, não perdia um dia se quer do trabalho. Detestava ter que ir a um compromisso que não fosse aquele que ela havia se acostumado a fazer. Não se consultava com médicos, não almoçava fora e não levava o carro para a revisão já há algum tempo. Sua rotina era a mesma há alguns anos, contudo, ainda gostava de realizar a árdua tarefa de levantar cedo, tomar seu café preto e dirigir até o trabalho, sempre pelo mesmo caminho é claro, já havia feito às contas, e o caminho que percorria todo santo dia era mais econômico e mais rápido também. Os "bons dias" que desejava, eram sempre para as mesmas pessoas; o radialista da estação que ela escutava dentro do veiculo, seus companheiros de escritório e os clientes que adentravam o estabelecimento durante toda a manhã.

O rádio-relógio iluminava o quarto de forma suave e aceitável, auxiliando assim sua visão que conseguia ver um pouco do chão e também do seu guarda-roupa com uma das portas abertas. Faltava coragem para levantar e fechar.

Já era tarde, e seu sono tinha resolvido ficar ausente naquela noite. Rolava na cama, analisando varias maneiras de conseguir dinheiro extra, afinal, o tempo corria e uma frase que ela sempre estava acostumada a dizer para si mesma, como uma forma de filosofia pessoal, adotada por ela mesma inconscientemente; "o mundo gira, e não podemos nos dar ao luxo de ficar parado, esperando o tempo passar". Essa frase estava presente nos seus pensamentos, ela se cobrava pelo fato de dormir, tempo esse que ela poderia estar fazendo algo para ganhar dinheiro, em vez de simplesmente dormir. Raciocinava sobre aquela frase pessoal e admitia que o stress havia tomado conta do seus dias. Sua cobrança com si própria era evidente e preocupante. Cobrava-se tanto que se esforçava para ser a melhor em tudo o que fazia. No trabalho, afazeres domésticos, no transito, ela não perdia horários e compromissos, havia uma ânsia em ser competitiva, e essa ânsia era o motivo pelo qual ela estava sozinha, somente um rádio-relógio lhe fazia companhia aquela noite, assim como tantas outras. A solidão não a incomodava, pelo menos não incomodava tanto como a idéia de ficar rica. Julgava o dinheiro proprietário de coisas como: companhia e felicidade, coisas que poderia obter a qualquer hora em qualquer lugar se tivesse o tal do dinheiro. Mas ainda assim admitia uma certa falta de calor humano. 

Finalmente quando pega no sono, acaba sonhando com os pensamentos que reviram sua cabeça, como em um passe de mágica, ela consegue se observar no meio de pessoas com sorrisos forçados e bajulação evidente para com a sua pessoa, como se ela fosse portadora de algo que chamasse a atenção dos outros, algo que ela sabia o que era. Nesse momento, dentro do seu quarto, em sono já profundo, um sorriso real e discreto se forma em seu rosto, procedente de um suspiro leve e calmo. De fato ela está feliz naquele momento com os olhos fechados, dormindo e sonhando dentro do seu quarto branco e frio, apenas um rádio-relógio como testemunha.

Sem que ela soubesse, seus maiores desejos entram em seus sonhos e permitem que ela seja feliz naqueles últimos momentos da madrugada, antes de voltar para a realidade, para os "bons-dias" e para o trajeto que percorre indo ao trabalho. 

Mas percebendo tal ingenuidade, o rádio-relógio faz questão de despertar de forma grosseira e gritante tocando um bip bastante familiar para aqueles ouvidos; tirando ela do mundo dos sonhos e a devolvendo ao mundo real. Indisposta e com olheiras tão escuras que a própria maquiagem não consegue esconder, simplesmente segue sua rotina; desliga o despertador, tira seu baby-doll e segue até o banheiro, liga o chuveiro e se permite despertar debaixo da água quente e gostosa; escova os dentes, se veste, toma seu café preto, liga seu carro e mais uma vez faz seu trajeto até o trabalho, abraçando assim mais um dia. Afinal como ela sempre costuma dizer; "o mundo gira, e não podemos nos dar ao luxo de ficar parado, esperando o tempo passar”.

4 comentários:

Milena Lobo disse...

As vezes, as paredes brancas e frias que nós cercam estão alí como oportunidades para que a tinta quente de nossa vontade possamos pintá-las e lhes dar vida, mas tudo não é tão simples assim na verdade.
Adorei ao texto!

Anamaria B. disse...

te seguindo :)
http://aninhabit.blogspot.com/

Manuella Monte Santo disse...

Que o preconceito existe, é fato. Mas como combatê-lo?


Abraço

José María Souza Costa disse...

um abraço, pra voce garoto. Belo texto.

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